24/06/2009

ABORTO: As contradições da vida humana





O aborto sem dúvida alguma é um dos temas que mais geram polêmicas no mundo atual. Tal fato se dá porque este é um tema que não se situa só no campo legal e médico, tendo contornos na ética, na filosofia, bem como na religião e na política, sem nunca ser enfrentado sem uma carga de emotividade.

Um fato é certo: o aborto existe aos milhares. Ainda que, violando as leis da natureza, e, na visão da igreja, cometendo um pecado, as mulheres realizam este “delito”. Existem dados que inclusive chegam a uma posição alarmante de que cada nascimento com vida corresponde a um aborto. O Código Penal, que data de 1940, incrimina o aborto. O que se deve destacar é que nesta época, a Sociedade sofria uma influência decisiva da Igreja, sendo, por isso, o aborto considerado um delito.

Existem no Código Penal duas causas de exclusão da antijuridicidade, ou seja, em dois casos o aborto não é tipificado como crime, e, assim sendo, ao se submeterem a um aborto, tanto as mulheres como os médicos responsáveis pela interrupção da gravidez não cometem crime.
As duas excludentes de ilicitude do aborto são: a existência de perigo à vida da mãe e a gravidez decorrente de estupro. Em relação à primeira excludente, entre a vida da mãe e a do feto, a lei prioriza a vida da mãe, ao admitir a interrupção da gestação que coloca a sobrevivência da genitora em risco.

Porém, inexiste uma regulamentação do aborto eugênico, o que deixa à mostra o direcionamento do legislador pátrio de desrespeito à qualidade de vida. Assim sendo, as mulheres gestantes de anencéfalos são obrigadas a enfrentar uma gestação que, inclusive, muitos médicos consideram um risco à saúde da mãe, para no final de nove meses, quando a gestação chega a tanto, ter em seus braços uma criança, que na maioria dos casos, quando nasce com vida, morre logo em seguida salvo raríssimas exceções.

Além de ser um desrespeito para com a mulher, a negativa da interrupção de gravidez de anencéfalos chega a ser até mesmo um contra-senso, já que apesar de as mulheres serem obrigadas a levar adiante este tipo de gestação, em contrapartida, ao se observar uma outra circunstância, temos que a própria lei permite que se desliguem os aparelhos que mantêm vivas as pessoas que não têm mais atividades cerebrais. Ora, se a lei permite tal ato, porque obriga a gestação de seres que são anencéfalos?

De outro lado, em relação à segunda excludente, o que se observa é que ao se permitir a interrupção de uma gestação fruto de um estupro, se ceifa a vida de um ser humano que poderia desenvolver toda a sua potencialidade de vida, ao contrário do que ocorre com os anencéfalos.

Apesar de ser sempre alegada que a interrupção da gravidez decorrente de estupro deve-se a questões de humanidade, já que, a mulher não poderia ser obrigada a carregar um fruto de uma agressão sexual, muitos se esquecem que uma grande parte de nossas crianças são geradas por violência sexual cometida no próprio ambiente doméstico pelos maridos ou companheiros das mulheres. E a estas mulheres, mais uma vez, não é permitida a interrupção da gravidez.

O que muitas pessoas não sabem é que a legalidade do aborto, decorrente de estupro, não tem nada a ver com questões sentimentais. O objetivo desta interrupção, na verdade, não tem caráter humanitário, pois, se assim o fosse, as mulheres que sofrem violência sexual por seus maridos e/ou companheiros também teriam o direito de abortar.

O objetivo da interrupção da gravidez em caso de estupro é meramente patrimonial, pois, a nossa lei civil presume que o marido de uma mulher casada é o pai de seu filho. Logo, a gravidez, mesmo decorrente de violência sexual, faz com que o filho do estuprador seja reconhecido como filho do marido da vítima.

Desta forma, a fim de prestigiar a paz e o patrimônio familiar, o legislador permitiu o chamado aborto sentimental. Mas, apesar de esta segunda excludente ter sido batizada de aborto sentimental, a preocupação nunca foi com o sentimento da vítima, mais sim para impedir que um bastardo se tornasse herdeiro do patrimônio familiar.

Concluindo, temos que, existem inúmeras contradições visualizadas no tema aborto. Hoje, mais do que nunca, diante da alarmante quantidade de mulheres que morrem devido a abortos mal sucedidos em nosso país, deveríamos ter em mente que crime não é abortar, mas ignorar o aborto como fato social existente, clamando por regramento jurídico atualizado e adequado.

Em Tempo: assistimos pouco tempo atrás aqui em Recife Pernambuco , uma acirrada polêmica, outra vez entre a igreja, a ciência e a lei. No caso da menina que engravidou do padrasto. Embora amparada pelas leis brasileiras, pois como citado acima “a mãe “no caso esta criança de nove anos, possuía os dois requisitos para interrupção da gravidez. Pudemos observar certa demora e o sensacionalismo que estavam dando ao caso. Sabendo-se que quanto mais tempo passasse pior seria para esta criança aumentando os riscos de interrupção. A criança estava como foi informado através da mídia (na décima quinta semana) e o aborto legal só pode ser feito até a (Vigésima semana).

A justificativa dada para tal demora segundo notícias divulgadas na época pela imprensa, foi de que houve discordância entre a mãe que era favorável, e o pai da garota que por motivos religiosos achava que a gravidez deveria ser levada adiante, mesmo tendo sido lhe explicado os riscos que a sua filha corria. Como também pronunciamentos desfavoráveis feitos pelo arcebispo de Olinda e Recife, como também da advogada da dita Arquidiocese, que ao ser entrevistada afirmou: “O ESTUPRO é muito pequeno em relação à vida” e que a vida devia ser preservada sempre. E aí nós indagaríamos a magistrada e a vida da “criança grávida” não conta, pois se algo lhe acontecesse não estaríamos ceifando a vida desta inocente?

Concordamos com a opinião do médico responsável, humano e coerente quando disse em tom de desabafo “Ainda bem que vivemos num estado laico e nossa constituição não é nem a Bíblia nem o Alcorão (livro dos mulçumanos).

Torcemos para que esta inocente criança consiga superar tamanho estrago na sua vida psíquica e que possa dar continuidade às fases que vem a seguir, e rogamos a Deus nosso PAI, que é o meu, o seu, o do Arcebispo, da Magistrada, como também do pai não sei se negligente, mas com certeza sem conhecimentos desta criança! Que a ajude a superar tamanho TRAUMA e que possa como num milagre “apagar” ou ao menos minimizar as seqüelas para esta inocente criança vítima de um adulto abusador infame.

A HOMOSSEXUALIDADE E O DIREITO À SEXUALIDADE



“Os direitos humanos não estão escritos nas estrelas
cabe aos homens construí-los”
Albert Einstein


A sexualidade integra a própria condição e dignidade humana. É um direito humano fundamental que acompanha o ser humano desde o seu nascimento, pois decorre de sua própria natureza. Segundo a Desembargadora Maria Berenice Dias, como direito do indivíduo, a sexualidade é “um direito natural, inalienável e imprescritível”[1].

Existem muitas formas de expressão da sexualidade humana e muito se tem estudado acerca do comportamento dos indivíduos que demonstram afeto por pessoas do mesmo sexo. De início, os estudiosos tratavam a homossexualidade como um distúrbio, uma doença que deveria ser tratada. Foi só a partir de 1973, que o homossexualismo deixou de ser classificada como doença pela Associação Americana de Psiquiatria e também pela classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10, adotada no Brasil, publicada em 1993.
[2].

Algum tempo depois foi incluída uma variável comportamental, com a alegação de que o comportamento homossexual era uma questão de escolha. Mas, apesar dos diversos estudos acerca do tema com a finalidade de enquadrar tal opção como proveniente de componentes biológicos ou sociais e comportamentais, temos que nada de concreto ainda se pode dizer a respeito desta questão. Deste modo, a maioria dos estudiosos prefere usar o termo “orientação sexual” em vez do termo “opção sexual”.

O que se pode afirmar é que a homoafetividade, termo agora bastante utilizado por enfatizar os aspectos emocionais e espirituais envolvidos na relação amorosa de gays e lésbicas, não é uma atitude deliberada das pessoas. Não há uma escolha. Isto é o que a maioria das pessoas parece não entender e exatamente por isso, passam a ter atitudes preconceituosas para com os homossexuais. Se fosse uma questão de escolha a maioria dos homossexuais não optaria por ter esta orientação sexual. Importante é a lição da Dra. Maria Berenice Dias que nos traz que:

“Ainda que se desconheça a origem da homossexualidade, o certo é que se trata de uma tendência que não decorre de uma escolha livre. Se tivessem opção, muitos homossexuais prefeririam não o ser. Assim como a atração por uma pessoa do mesmo sexo não nasce de um ato de vontade, nada justifica o desrespeito às expressões minoritárias da sexualidade, revelando-se de todo desarrazoada a total indiferença diante da diferença”
[3].

É bem verdade que a sexualidade sempre esteve envolta em mitos e tabus. A única forma de expressão sexual permitida era a sexualidade entre marido e mulher. Esta forma, aliás, mas do que um direito é uma obrigação dos cônjuges daí a expressão débito conjugal. Outras formas de expressão sexual sempre foram combatidas e não aceitas pela sociedade.

No Brasil, país que teve forte influência da igreja Católica, a sexualidade deveria limitar-se à procriação. E muito se lutou para que outras uniões não conjugais entre homem e mulher fossem aceitas pela sociedade. Já a homossexualidade é vista atualmente pela igreja como “intrinsecamente má”.

Assim sendo, a sexualidade dos homossexuais, bissexuais, transexuais e transgêneros, e também a união de pessoas de sexos diferentes que não querem ou não podem ter filhos sempre foi vista aqui no Brasil como algo a ser banido por não ser parte dos estereótipos do que é certo ou errado, conceitos estes tão defendidos pela igreja Católica.

E, exatamente por não fazer parte do que é considerado normal, o comportamento homossexual passou a ser rotulado de anormal, sendo os homossexuais relegados à marginalidade por não terem um comportamento sexual ditado conforme as regras morais preestabelecidas.

É notório que a sociedade repudia tudo aquilo que não está restrito aos padrões sociais e sempre marginaliza determinados segmentos que conforme determinada época histórica fizeram parte de minorias. Tivemos e ainda percebemos uma forte discriminação contra os negros, contra os índios e contra as mulheres. Com os homossexuais a conduta da sociedade não poderia ser diferente.

O fato é que a sociedade como um todo força a manutenção dos costumes que nada mais são do que a repetição do que foi aceito no passado. E, para a mantença do que é considerado certo e moral dentro dos costumes, a sociedade prefere não observar o afeto entre os homossexuais, afim de que com este comportamento possam excluí-los da sociedade.

“A sociedade que se arroga o direito de infligir ao indivíduo os mais medonhos castigos, comete também o supremo pecado da negligência ao não perceber as conseqüências de seus atos. Depois que o homem cumpre a pena, ela o abandona, isto é, deixa-o entregue à própria sorte, no maior momento em que deveria zelar por ele”. (Oscar Wilde).

Mas, não é ignorando a existência da homossexualidade que ela irá desaparecer. Aliás, temos que nenhum comportamento anteriormente tido como anormal ou contra os costumes desapareceu, tendo o legislador inclusive mudado as leis e reconhecido outras entidades e não só a entidade conjugal como sendo verdadeiras famílias. Hoje não mais é possível rechaçar quem vive em união estável e muito menos fazer discriminações dos filhos nascidos diante desta realidade de relacionamento.

Entretanto, em relação aos homossexuais, temos que ainda não foi reconhecida esta forma de expressar a sua sexualidade e assim sendo diversos direitos têm sido negados a estas pessoas. Ainda há uma falta de regulamentação à união civil entre homossexuais, o que alimenta a discriminação e a agressão contra eles. Há conseqüentemente uma verdadeira inversão de valores, pois, a falta de regulamentação de leis por parte dos legisladores termina servindo para banir os direitos destes cidadãos.

O que se deve observar, entretanto, é que vive-se hoje em um Estado Democrático de Direito em que a Constituição preceitua em seu art. 1º, 3º e 5º que:

“Art. 1º: “A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e municípios e do distrito federal constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

I-(...)
II-(...)
III- a dignidade da pessoa humana;
IV- (...)
V-(...)

“Art. 3.º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I- construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II- (...)
III-(...)
IV- “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.”

“art. 5.º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (...)”

Desta forma, temos que conforme ensinamento de nossa Constituição, a prática sexual é livre. Todo ser humano é livre para ir e vir, livre para escolher a forma como quer viver.

Não se pode mais admitir o preconceito contra as pessoas que demonstrem afeto por pessoas do mesmo sexo. O ser humano tem o direito de se envolver emocionalmente com qualquer pessoa e este direito deve ser assegurado de forma inequívoca.

Hoje em dia, grande parte dos homossexuais já mostra sua orientação nas ruas e lutam por seus direitos havendo uma crescente positivação da doutrina em alguns aspectos como o benefício do INSS para o companheiro do homossexual falecido, entre outros. Mas, a relação de afeto entre os homossexuais ainda não é vista como uma união civil. É vista tão somente como se fosse uma sociedade comercial. E deste modo, questões referentes ao patrimônio amealhado durante a vida em comum dos homossexuais ainda são discutidas na maioria dos tribunais em varas cíveis e não em varas de família, o que seria o correto, pois se trata de uma união de afeto entre duas pessoas e não de uma sociedade comercial.

Concluindo, temos que o preconceito contra as pessoas que amam aquelas do mesmo sexo deve ser combatido. Estas pessoas tratam-se antes de tudo de cidadãos e a elas devem ser garantidos todos os direitos previstos nas nossas legislações.

Ser diferente não é uma forma inferior de sexualidade. Ninguém deve ter medo ou se envergonhar de sua orientação sexual. A homossexualidade não deve ser vista como uma atitude de agressão aos demais. O que é terrivelmente agressivo é a rejeição e o preconceito de que são alvos os homossexuais. Finalizando com o que ensina a Desembargadora Maria Berenice Dias temos que:

“Indispensável que se reconheça que a sexualidade integra a própria condição humana. Ninguém pode realizar-se como ser humano se não tiver assegurado o respeito ao exercício da sexualidade, conceito que compreende a liberdade sexual, albergando a liberdade da livre orientação sexual. (...) É um direito de todos e de cada um, que deve ser garantido a cada indivíduo por todos os indivíduos solidariamente. É um direito de solidariedade, sem cuja implementação a condição humana não se realiza não se integraliza. (...) Por isso, é totalmente descabido continuar pensando a sexualidade com preconceitos, isto é, “pré-conceitos”, ou seja, com conceitos fixados pelo conservadorismo do passado e engessados para o presente e o futuro “
[4]

[1] DIAS, Maria Berenice. Conversando sobre homoafetividade. Porto Alegre: Livraria do advogado, 2004. P. 46
[2] Em tempo, em 1970, um grupo de ativistas homossexuais, em São Francisco e USA vencendo barreiras policiais adentraram no auditório onde acontecia o Congresso Americano de Psiquiatria para mostrar que não eram doentes mentais. Três anos depois é que a homossexualidade deixou de ser considerada como uma doença mental.
[3] DIAS, Maria Berenice. Conversando sobre homoafetividade. Porto Alegre: Livraria do advogado, 2004. P. 30.
[4] DIAS, Maria Berenice. Liberdade sexual e direitos humanos. Anais do III Congresso Brasileiro de Direito de Família: Família e cidadania, IBDFAM/OAB-MG, Belo Horizonte, 2002. p. 85-86.

A INFIDELIDADE CONJUGAL E A ALIENAÇÃO PARENTAL





Na família, os pais deixam suas marcas nos filhos, inscrevem e introjetam em seus corpos e em suas almas, estilos de vida, ambientação, valores, projetos e às vezes também sintomas indesejáveis. De modo construtivo, o pai marca profundamente seu filho, com sua palavra, com seu olhar, com seu reconhecimento, com seu elogio, com seu cuidado, com seu amor, com seu interesse pelos projetos presentes e futuros, com sua ternura, com sua firmeza, com sua capacidade de dizer sim e, sobretudo, de dizer não quando se fizer necessário. Todo ser humano de forma indiscriminada precisa reconhecer-se nos pais e ser por eles reconhecido. Todo filho precisa, necessita de braços e abraços, braços que lhes amparem e abraços de acolhimento, precisa de direcionamentos, de modelos que lhe sirvam e funcionem como espelhos, para sentir-se capaz de enfrentar o mundo, para que não lhe congele no peito a capacidade de amar os filhos que virá a ter amanhã.

Normalmente as pessoas que têm casos extraconjugais pensam que estão traindo apenas o cônjuge, porém, para os filhos, essa é uma situação à qual jamais imaginariam, um dia, passar. É uma traição à família que compromete a sua estabilidade idealizada. Quando a infidelidade leva à separação, esta desorienta e desorganiza uma família. Muitas vezes, os filhos sentem-se culpados pela separação dos pais e impotentes diante da situação.

O impacto da separação dos pais pode por vezes assumir proporções gigantescas o pior de tudo é quando um filho compartilha o segredo da infidelidade com um dos genitores; essa é uma situação parecida com o incesto, o filho fica preso no segredo sexual e dividido em sua lealdade. Como resposta a essa situação desorientadora e desesperadora, os filhos desenvolvem sintomas, como agressividade, ansiedade, baixo rendimento escolar, possessividade, ciúmes, passando inclusive a dissimular a verdade, entre outros comportamentos.

Esses sintomas também podem ser de forma inconsciente, uma tentativa de aproximar os pais ou adiar a discussão em torno da separação. E, quando isso não funciona, muitos se afastam dos pais buscando algum tipo de apoio fora da família, normalmente em grupos de usuários de drogas e com comportamentos anti-sociais.

A “tragédia” de um divórcio ou a simples separação não tem uma idade específica para se dizer que seja a pior fase para os pais se separar, mas, segundo pesquisas, a adolescência parece ser uma fase especialmente delicada, pois os jovens estão se formando e se transformando sexualmente e pensar que os pais não têm controle sobre sua sexualidade e sentimentos, pode ser de um lado muito assustador, como também estimulador e permissivo. Esta é apenas uma das conseqüências que um divórcio pode vir a ocasionar aos filhos.

Um outra situação desorientadora ocorre, em muitas famílias, depois que o cônjuge infiel sai de casa. Os filhos que acabaram ficando do lado do traído se vêem envolvidos pelas artimanhas que o mesmo faz para trazer aquele de volta para casa criando, portanto uma verdadeira aliança, o que vem ocasionando o que alguns definem como “síndrome da alienação parental” e outros definem como “implantação de falsas memórias”.

A síndrome da alienação parental ocorre quando um dos genitores, normalmente a mãe, já que a esta ainda cabe a guarda dos filhos, programa uma criança para que odeie o genitor sem qualquer justificativa. Trata-se de verdadeira campanha para desmoralizar e desqualificar o mesmo. O filho é então utilizado como instrumento da agressividade direcionada ao parceiro. A mãe monitora o tempo do filho com o genitor e também os seus sentimentos para com ele. Fazendo- lhes verdadeiras cobranças e apelos absurdos.

E nesta alienação e desorganização sentimental, os filhos se vêem em situações tão conflituosas quanto confusas, situações ambivalentes e desorganizadoras sendo, portanto os que mais sofrem. Muitos filhos chegam a nossos consultórios trazendo um verdadeiro pavor em repetir futuramente erros dos pais, outros, entretanto carregam um verdadeiro sentimento de culpa, culpa por não ter salvado o casamento dos pais!

Tentamos enquanto terapeutas de casais e famílias de alguma forma esclarecê-los que o resultado do que ficou da infidelidade, do divórcio e desse fogo cruzado poderá vir a repercutir mais tarde em suas vidas, salientando que tudo irá depender do modelo que estes escolheram para seguir. Se o modelo do infiel ou do traído. Salientamos ainda e enfatizamos que existem exceções, que são os filhos que escolhem que não querem ser como ninguém dessa “tragédia”. Filhos que escolhem ser e fazer diferente e não repetir o modelo que lhe foi passado! Sobretudo não imputando aos filhos que virá a ter esta sensação de fracasso, de impotência, poupando-os deste sentimento de culpa!

Concluindo temos que: A história da família deve ser do conhecimento e interesse de todos. Cabe aos pais passarem as informações necessárias aos filhos e ajudá-los a passarem por essa fase de transição e mudança de forma esclarecedora. Isso é necessário para que os filhos possam compreender o que aconteceu e fazer contato com as dores de forma aberta e clara, para mais tarde poder aceitar e perdoar os pais. O divórcio e a infidelidade são situações que põem em xeque todas as fantasias do amar eterno, do casar e constituir uma família e ser feliz para sempre. Sabemos que “Não existe filho alegre pelo fato dos pais estarem separados, como também não podemos generalizar que todo filho triste deve-se a separação dos pais! Existe filho triste de pais que brigam de pais que disputam e vivem em um eterno fogo cruzado usando destes filhos para atingir seu alvo.”

Quanto ao parceiro responsável pela dissolução do relacionamento este pode também querer perdoar-se pelo sofrimento que causou aos filhos e trabalhar esta culpa. Isso pode tornar-se uma tarefa fácil se ele puder ensiná-los, pelo seu próprio exemplo, que duas pessoas que se amam podem cometer erros, assumir a responsabilidade deles e trabalhar com o objetivo de renovar sua vida em conjunto e, sobretudo mostrando para estes filhos que seu relacionamento conjugal não deu certo, mas isto em nenhuma hipótese pode se estender para seu relacionamento de pais e filhos cabendo-lhes ainda investir o máximo possível para que os filhos sintam que não desistiu deles!

No tocante ao segundo aspecto abordado neste texto referente à síndrome da alienação parental é preciso que os genitores tenham sensibilidade e discernimento de que quando um casamento chega ao fim, à separação é entre eles. Separar a criança do pai ou da mãe é puni-la por algo que ela não tem a menor culpa!

23/06/2009

QUEBRA DE TABUS

“A vida sexual transforma-se constantemente, ao longo de toda
a evolução individual, porém só desaparece com a morte.”
Mira y Lopez

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Para cada fase cronológica da vida humana são padronizados deveres e direitos, permissões e proibições, mas sem dúvida, a fase em que a vida do ser humano é mais castrada em seus direitos e satisfações é a velhice. Em se tratando de sexualidade então, a velhice é ainda mais carregada de castrações, de proibições, mitos e preconceitos e isso se deve à crença de que com o envelhecimento biológico a pessoa deixa de ter necessidades ou mesmo vontades e desejos de satisfação sexual.

Algumas pessoas que, depois dos quarenta anos, têm desejos sexuais, podem até se sentir envergonhadas devido ao tabu da sexualidade, o que as leva a acreditar que seriam ridicularizadas se admitissem seus desejos e, especialmente se os satisfizessem. Portanto, o “mito da velhice assexuada” está não só entre os jovens como também entre os próprios idosos.

Esses valores culturais nos são impostos desde o começo da vida, pois já na infância somos obrigados a acreditar que quando ficarmos velhos teremos de nos conformar com o fim da nossa sexualidade. O papel das mulheres, por exemplo, ensinadas e condenadas durante séculos a serem submissas, sem iniciativa, tinham seu destino traçado ao nascer: casar-se, engravidar e tomar conta da casa. Não se admitia que tivessem desejos próprios, pudessem participar ativamente da vida sociocultural, escolhessem como viver sua vida e, sobretudo vivenciar sua sexualidade.

A mulher, então, tinha a sexualidade diretamente relacionada à maternidade e não ao prazer sexual. A mulher era valorizada apenas pela sua capacidade de procriação. Podemos aqui traçar um paralelo: se a valorização é dada pela reprodução, cessando essa capacidade vem à desvalorização, o desprestígio e parece que isso se perpetuou até nossos dias. Originando um dos mitos que mais assombram as mulheres: Menopausa: ser sinônimo de mulher assexuada.

A menopausa tem significado próprio para cada mulher, mas para a maioria é símbolo de envelhecimento, muitas pensam que é o fim de todas as sensações e experiências sexuais. O que mais assusta grande parte das mulheres é que elas acreditam que com a menopausa a vida sexual termina. Algumas mudanças físicas somadas à desinformação e a falta de conhecimentos destas mulheres geram grandes sofrimentos.

Esse desconhecimento, muitas vezes quase total, de sua própria dinâmica física, acaba por gerar sentimentos de inferioridade, angústia, depressão, insegurança, incerteza, e até mesmo, de inutilidade, e o que é pior: crença nas inverdades que existem ao seu redor.Muitas mulheres sofrem só em pensar que um dia chegarão à menopausa e sofrem ainda mais quando os primeiros indícios dela começam a se fazer presentes, pois suas crenças já predispõem seu organismo a uma reação esperada de que não mais serão atraentes ou desejadas.

Os efeitos da menopausa variam de mulher para mulher, conforme a vida que cada uma levou, mas isso não é motivo para desespero. A menopausa é a cessação da produção dos hormônios de reprodução e conseqüentemente o fim da procriação, um dos papéis femininos mais importantes e gratificantes. Como já foi comentado acima, a crença no fim da sexualidade com a menopausa está ligada especialmente ao papel social da mulher, que ao longo da história da humanidade, era tão e exclusivamente o de procriadora. No entanto, mulheres que possuem uma percepção mais ampla de si mesmas e da relação que têm com o mundo podem vivenciar esta fase sem grandes problemas.

O envelhecimento e as alterações são percebidos, mas a mulher procura continuar seu processo de vida, buscando cuidar-se, continuar sendo útil e viver essa nova fase, pois mesmo que organicamente, com a velhice venha a perder algumas capacidades físicas, não perde a capacidade de sonhar, desejar, e principalmente desejar viver. Poder desejar, é o que nos distingue das outras espécies. Este desejo possibilita o enfrentamento com a idéia de que somos seres mortais. E, por conseguinte o nosso desejo sexual só se extingue com a morte.





Por tudo o que foi exposto, temos que o que a mulher idosa precisa entender é que a idade não deve ser temida como fator de redução do prazer sexual. É inegável que com o passar dos anos ocorreram alterações qualitativas e quantitativas na resposta sexual, mas essas mudanças não estão dissociadas do contexto geral de outros aspectos orgânicos que também se alteram com a idade, como, por exemplo, a locomoção, a digestão, a visão ou a circulação.

Por essa razão, a idade não pode ser considerada um fator central e determinante nos problemas sexuais. Desse modo, o organismo é como um todo que se modifica com a idade e, nesse contexto, também a sexualidade se transforma, mas não se torna menos agradável. O desconhecimento é responsável pelo fato de as pessoas manterem uma expectativa do padrão sexual da juventude, incompatível com as alterações fisiológicas da resposta sexual, que se iniciam a partir dos 40 anos de idade.

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SEXUALIDADE FEMININA NO PROCESSO DE ENVELHECER


“O vento” é sempre o mesmo
Mas sua resposta é diferente
Em cada folha.
Somente a árvore seca
Fica imóvel
“Entre borboletas e pássaros.”
Cecília Meireles

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“É importante aumentar a quantidade de vida, ou seja, a longevidade, como também é importante melhorar a qualidade desta vida.”
Nelson Rodrigues Junior



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Falar na sexualidade do idoso na contemporaneidade é um assunto sempre em pauta não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Como cada vez mais, a medicina tem progredido e logrado êxito na busca da saúde e do bem-estar das pessoas. A longevidade é hoje um fenômeno observado mundialmente e, atualmente, as pessoas têm se preocupado cada vez mais com a qualidade de vida na velhice, e, “envelhecer com saúde” é hoje o lema de todos.

No mundo globalizado em que vivemos, a qualidade de vida na terceira idade é um dos assuntos que mais interessam à população. Inúmeros são os meios de informação que vão desde revistas a sites na internet que tratam sobre o tema. Assim sendo, vários segmentos e profissionais de diversas áreas, em especial os que lidam com a psique humana têm se preocupado com a questão.

No Brasil, que até bem pouco tempo atrás era considerado um país de jovens, a preocupação com a velhice está na ordem do dia. Uma verdade é inegável: a população brasileira está envelhecendo. E envelhecendo muito bem, diga-se de passagem. Pessoas idosas estão na televisão, nas ruas, nos cinemas, nas academias, nas escolas, nas universidades, nas agências de turismo, nos sites de relacionamentos, enfim nos mais diversos setores e espaços da nossa sociedade.





A velhice não é uma etapa da vida que se apresenta sempre da mesma forma ou que represente uma realidade definida. Apesar de a velhice ser um fenômeno biológico, o organismo do idoso condiciona-se a uma peculiaridade, diferentemente do que ocorre com outras espécies, na medida em que acarreta conseqüências psíquicas e psicológicas.

A trajetória do ser humano é um somatório das experiências vividas, dos valores aprendidos, das metas alcançadas, sobretudo, da compreensão e das interpretações pessoais que cada um tem do mundo em que vive. A velhice, tal como a infância, a juventude e a idade adulta é circunscrita como uma etapa de transformações, de perdas e de ganhos, tanto física como biológica, emocional, psíquica e sexual. Em relação à sexualidade é importante lembrar o pensamento de Wolber Alvarenga: “Não existe senso comum a respeito do sexo,” ainda mais com os indivíduos geriátricos. Em linhas gerais, notamos que se dá uma perda na quantidade desta reposta; entretanto, podemos observar melhora na qualidade. É a velha história: em toda perda há um ganho. “Em todo ganho há uma perda, em toda perda há um ganho. Se eu fico no que perco, eu perco o que ganhei!”








Como na atualidade, os seres humanos têm chegado à velhice em melhores condições físicas e de saúde, graças ao progresso das ciências, da medicina, da biologia, na prevenção e controle das doenças, estão, portanto, mais aptos a usufruir da sexualidade. E, em relação à sexualidade da mulher no processo de envelhecer , tema do presente artigo nós observamos que tem continuamente crescido o número destas mulheres que vêm se empenhando na busca dos mais diversos tratamentos, sejam eles medicinais, alopático-homeopáticos, tratamentos milenares como ioga, como também procuram cada vez mais apoio em terapias e grupos de terceira idade.

Todo este empenho na busca de uma melhor qualidade de vida tem como conseqüência o fato de que hoje podemos observar que as mulheres idosas encaram a meia-idade com viço, vigor e vida sexual muito mais ativa, comprovando que a idade pode até diminuir o desejo, mas não é nem de longe o fim da linha.
GRAÇAS A DEUS!



Programa de atendimento à Mulher





“O prazer em ser mulher”

Percebendo o desconhecimento e a necessidade de algumas das nossas pacientes, resolvemos criar um programa de atendimento à mulher no qual discutiríamos questões relacionadas à feminilidade, direitos, conquistas, aspectos culturais, sociais e antropológicos, e, em especial, à questão da Sexualidade, tema ainda tão povoado de preconceitos,crenças mitos e de tabus.

Observamos que de modo geral, as mulheres desconhecem sua real beleza, capacidade, poder e prazer, em todos os papéis que exerce: mãe, companheira, profissional, ser cultural e social, e como viver sua sexualidade. A mulher não necessita competir com o homem, nem abrir mão de suas características; ela precisa SER para sentir o prazer e a beleza de TER. “O Ter é uma conquista a partir do sentimento que ela realmente É”.



As mulheres precisam primeiro explorar a própria sexualidade para depois seduzir os parceiros. O aspecto físico é secundário e o que torna uma mulher realmente sexy é a segurança, a auto-estima e a maneira de conquistar. "Quando ela se sente à vontade consigo mesma, agradar o homem se torna um processo natural”.



Percebemos também que “a iniciativa de salvar o relacionamento e apimentar a relação parte em 90% das vezes das mulheres”. Por outro lado, a compreensão das dificuldades do homem em falar sobre sua sexualidade, impossibilidades e disfunções, também é assunto a ser compreendido pelas mulheres, que devem aprender a conviver com tais limitações, sem medo e/ou preconceito sobre o tema; enfatizamos que, quando a mulher leva novidades para “apimentar” a vida sexual, deve colocar o homem como participante e não como mero expectador.



"O envolvimento é o que acaba gerando uma mudança significativa na vida dos casais". A mulher na sua vivência no relacionamento com seu par exerce vários papéis: companheira, confidente, amante, romântica, sexy. “O que as mulheres buscam é: Surpreender o homem a cada momento, dando sempre o seu melhor”.


Dessa forma, tal percepção de si mesma, é extensiva a todos os demais papéis e funções em relação à família e à sociedade; sobretudo reconhecendo o valor e O Prazer em ser Mulher.

Trabalhos apresentados pelas especialistas em sexualidade humana responsáveis pelo Programa de atendimento à mulher:

Ângela Lessa de Andrade: Proposta de um manual de sexualidade para profissionais de PSF.

Neide Braga: Sexualidade feminina no processo de envelhecer e os mitos que a circundam.

Nélia Vieira : contato sexual - O que existe em comum na prostituta e a mulher com relacionamento estável.

Norma Barreto: A contribuição dos contos de fadas na sexualidade feminina.



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22/06/2009

PERDOANDO UMA TRAIÇÃO

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Per-doar
...Aprendi outro dia que perdoar é a junção de “per” com “doar”.
Doar é mais do que dar.
Doar é a entrega total do outro.
O prefixo “per” que tem várias acepções indica movimento no sentido “de” ou em “direção” a ou “através” ou “para” etimologicamente falando, portanto, perdoar, quer dizer doar ao outro a possibilidade que ele possa amar, possa doar-se.
Não apenas quem perdoa que se “doa através do outro”.
Perdoar implica abrir possibilidades de amor para quem foi perdoado, através da doação oferecida por quem foi agravado.
Perdoar é a única forma de facilitar ao outro a própria salvação.
Doar é mais do que dar: é a entrega total...
Perdoar é doar o amor. É permitir que a pessoa objeto do perdão possa também devolver um amor que, até então, só negara...
Autor Desconhecido

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“Pode-se perdoar, mas esquecer, isso, é impossível”.

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“Aquele que não consegue perdoar aos outros, destrói a ponte por onde irá passar”.
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A relação extraconjugal nos desperta para a realidade. Felizmente, também é um convite a uma nova tentativa. É bom ter em mente que, em princípio, tudo pode ser perdoado. Mas é claro que isso exige que cada um dos parceiros flexibilize seus limites pessoais e esqueça palavras como “nunca” ou “sempre”. Para perdoar de verdade, o parceiro deve abrir mão de preconceitos e idéias empoeiradas. Não há nada que não possa ser perdoado, nem mesmo o assassinato de crianças vítimas das atrocidades do Holocausto.

Perdoar é dizer à pessoa que o ofendeu que você, parceiro traído, já não sofre mais. Talvez a maior das dores existentes em um relacionamento conjugal seja provocada por uma traição, mas até mesmo ofensas menores pode ser uma ameaça, a menos que sejam perdoadas. O que acontece é que algumas pessoas têm mais facilidade para perdoar do que outras. Quando uma pessoa não faz parte desse grupo de pessoas super flexíveis,(no qual eu me incluía) deve considerar o perdão como um desafio e seguir em frente. E, em matéria de perdão, quanto maior o esforço, maior o ganho.

Perdoar é verbo pouco conjugado no contexto de nossa cultura narcisista movida à competição, ao imediatismo, a efemeridade, à mania de grandeza, à banalização de valores, à desconsideração da importância dos outros. Perdoar tornou-se, valor obsoleto, coisa de gente fraca, de gente que não tem perspectivas, no estilo dessa cultura hedonista pela mania de revidar, do olho por olho, de ser vencedor, de ter que sobrepujar, de passar por cima e de está sempre por cima!!! de destituir o outro, de ser herói!

Perdoar é “fazer uma escolha consciente de eximir a pessoa que nos magoou da sentença do nosso julgamento, por mais justificável que esse julgamento possa ser”. Representa a escolha de deixar para trás o ressentimento e o desejo de punição, por mais justa que possa ser a pena (...); não que a ferida em si possa ser esquecida por completo, mas o poder que ela tem de nos manter aprisionado num contínuo repassar do evento, com todo o ressentimento que cada lembrança traz à tona é quebrado. Além disso, sem de nenhuma forma mitigar a seriedade da ofensa, o perdão envolve desobrigar alguém das conseqüências punitivas que merece sofrer por seu comportamento. O comportamento permanece condenado, mas o ofensor é dispensado dos seus efeitos no que concerne ao sujeito que perdoa.

O perdão não significa achar que o que aconteceu estava certo.O perdão é um ato de criação. O parceiro magoado pela traição pode escolher entre muitas formas de proceder. Pode perdoar por enquanto, perdoar até que, perdoar até a próxima vez, perdoar, mas não dá outra chance – começar tudo de novo se acontecer outro incidente. Pode ainda dar só mais uma chance, dar mais algumas chances, dar chances só se... Pode perdoar uma ofensa em parte, pela metade ou totalmente. Pode, inclusive, imaginar um perdão abrangente. O parceiro traído é quem decidirá.

Como foi visto anteriormente se você deseja pavimentar o caminho de um perdão sincero, você não pode varrer o que aconteceu para debaixo do tapete. Você precisa que o seu parceiro entenda a sua dor, sinta remorso, peça desculpas e demonstre um comprometimento de reconstruir o relacionamento. Para curar-se, você precisa perdoar, mas é seu parceiro que deve aplicar o bálsamo nas suas feridas, primeiro.

“Perdão e reconciliação não são sinônimos. Perdão antecede, mas não garante reconciliação” Perdão não é sinônimo de esquecimento. O perdão não é um ato puro, de completa abnegação, mas parte de um processo lento e cumulativo que se inicia quando você divide a sua dor depois da revelação do caso, e desenrola-se à medida que você passa por experiências corretivas que reconstruam a confiança e a intimidade. É uma oferenda que deve ser conquistada, gradualmente, dia após dia.

O perdão, assim como o amor maduro, permite a existência simultânea de sentimentos conflitantes, a integração do ódio e do amor. Quando você perdoa, os sentimentos positivos não substituem os sentimentos negativos; eles passam a coexistir. O seu ressentimento permanece, mas relativizado pela percepção de que o parceiro infiel não foi tão imperfeito e nem o parceiro traído foi tão inocente. Mesmo que haja uma total dedicação ao perdão, é necessário frisar que a raiva pode surgir de vez em quando. E é preciso ter espaço para a raiva dentro de todo relacionamento saudável e, sobretudo tempo!

Ao perdoar, o parceiro traído põe o caso num contexto mais amplo da sua vida com o parceiro e passa a encarar a traição como um capítulo infeliz na vida do casal, mas não o todo. O parceiro magoado passa assim a ver que o seu parceiro é mais do que um traidor, é um ser humano passível de erros e que merece uma segunda chance.

Perdoar não é sinal de fraqueza, é conseqüência natural do fato de que não somos perfeitos. Se errarmos é natural que peçamos desculpas. Se outros erram, é natural que os desculpemos ,é necessário frisar que a raiva pode surgir de vez em quando. E é preciso ter espaço para a raiva dentro de todo relacionamento saudável e, sobretudo tempo! Pois, sentimentos humanos não são como torneiras que se abrem e fecham de acordo com o desejo; não estão sob controle absoluto de quem os experimenta. Ainda que alguém queira muito se livrar de sentimentos desagradáveis, como os causados pela infidelidade, e ainda que os estímulos que os provocaram não existam mais, há um tempo necessários para que esmaeçam gradualmente, desbotando até desaparecer e dar lugar a outros.

Quanto mais intensos e dolorosos esses sentimentos, mais demoram a desaparecer. Como vários outros ditos populares, é sábio o ditado segundo o qual “o tempo é o melhor remédio”; o tempo e, também o trabalho realizado durante esse tempo. No caso dos casais que decidem retomar a relação, após uma traição, esse trabalho inclui a comunicação, a verdade, a aceitação, a compreensão, a paciência e, se necessário, o perdão. “Quantos anos?”, poderia alguém perguntar, aflita sem saber quanto tempo irá durar sua dor. É impossível responder a esta pergunta. Há, no entanto, uma parábola de autor desconhecido resumida a seguir e que tenta respondê-la.

Segundo a parábola, uma pessoa deseja ter um viçoso bambuzal e lança à terra as sementes do bambu-chinês. Durante anos espera pelo seu desabrochar e nada acontece, quer dizer, nada que ela possa ver. Mas, durante cinco anos, uma raiz maciça e fibrosa está sendo construída horizontalmente, paralela à superfície da terra. Nesse período, todo seu crescimento é subterrâneo, invisível aos olhos de quem o plantou. Então, no final do quinto ano, um diminuto broto rompe a terra, e partir do bulbo, cresce rapidamente até atingir a altura de vinte e cinco metros.

Como uma analogia à vida humana, a parábola nos ensina que muitos dos processos de mudança e crescimento ocorrem dessa maneira: trabalhamos e investimos um longo tempo sem percebermos qualquer resultado externo.

Enquanto isso, um rico processo ocorre internamente, subterraneamente, invisível aos nossos olhos. Se tivermos a paciência e a capacidade de esperar enquanto continuamos nos esforçando, nosso quinto ano chegará – ou quinto mês, ou terceiro ano, ou sétimo ano, não importa o tempo em que o “quinto ano” chegará.

Nosso trabalho e nosso esforço poderão ser recompensados com um bambuzal de vinte e cinco metros de comprimento, com a mudança e o crescimento que buscamos pelo tempo que foi necessário. As pessoas precisam, para adotar seus valores, de tempo para vivenciar alguns, questioná-los, pensar sobre eles e finalmente adotá-los criticamente. A rapidez e a fluidez das experiências do mundo atual não facilitam essa explicitação clara de preceitos e comportamentos norteadores, devidamente vivenciados e valorizados, deixando-nos em um desamparo de valores.

Na vida, os danos psicológicos nunca saram ou desaparecem por completo, nem são substituídos por sentimentos positivos como num passe de mágica. Quer você seja o parceiro magoado ou infiel, a lembrança de como você se decepcionou com o seu parceiro tende a fazer você estremecer, mesmo daqui a vários anos. Achar que é possível recomeçar do zero como se nada houvesse acontecido, é um convite à total desilusão.

Quando se trata de perdoar o(a) seu, ou sua parceiro(a), você também pode sentir-se extremamente sobrecarregado (a). “Vai levar a vida toda”, insiste você. “Talvez mais”. E é precisamente isso. O processo do perdão desdobra-se com extrema lentidão e continua por todo o seu relacionamento. Não há ponto final, nem um momento em que vocês possam retirar o escafandro e dizer: “Podemos parar de lembrar-nos e dar o nosso trabalho por encerrado.” Parafraseando Kafka diria: "o momento decisivo do desenvolvimento humano é contínuo". Talvez agora você possa perdoar dez por cento do que o seu parceiro fez, e talvez à medida que vocês dois reconstruam seu relacionamento, você consiga perdoar mais oitenta por cento, e nunca mais do que isso.

E está bem. “A resolução do trauma nunca é final; a recuperação nunca é completa.” Lembre-se, você, parceiro traído, não é necessariamente uma boa pessoa somente se você desculpa totalmente; você não é necessariamente ruim se não consegue. Você só pode conceder o que puder e o que o seu parceiro merecer.