
“Se não houvesse linguagem, aquilo que discerne o corpo, este nem mesmo se constituiria. Senão pudesse falar o homem não cogitaria nem do corpo nem do real, nem da realidade [...] O primeiro corpo, o simbólico, faz com que o segundo, o biológico, nele se incorpore”.
Jacques Lacan
Para a psicanálise, a linguagem inicia a vida humana e a dimensão humana começa no advento do desejo; ademais, mediando às relações entre o homem e o mundo, ela é condição essencial ao desejo. Enquanto a organização da disposição pulsional exige a intervenção do outro, o aparato psíquico se inicia na referência a um universal simbólico instituído no princípio.
Seria o desejo um sentimento de falta? De incompletude? Uma expectativa consciente, ou inconsciente de possuir um objeto?
A psicanálise mostra-nos através do modelo do sonho e da fantasia como o desejo se encontra nos sintomas sob forma de compromisso, da busca de satisfação Em qualquer concepção do homem existem noções tão fundamentais acerca do desejo que não podem ser delimitadas. Em Freud o desejo (Wunsch) é, antes de tudo inconsciente, ligado a experiências infantis reprimidas; o que o caracteriza é o impulso para reproduzir, alucinatoriamente, uma satisfação original, um retorno a algo que já não é mais, a um objeto perdido cuja presença se marca pela falta.Percebe-se que o Desejo constitui o postulado psicanalítico do inconsciente, não há como falar em idade cronológica, da mesma forma que não há idade para o desejo, e, enquanto houver desejo, há uma aposta em uma análise. O sujeito é o desejo tal como afirmava Lacan.
“O desejo nasce da defasagem entre necessidade e a demanda;” é irredutível à necessidade, porque não é no seu fundamento relação com um objeto real, independente do sujeito, mas com fantasia; é irredutível a demanda na medida em que procura impor-se sem levar em conta a linguagem e o inconsciente do outro, e exige absolutamente ser reconhecido por ele.
Laplanche (1985 p114).
O Desejo elege e forma a primeira e única riqueza do ser humano. Ao operar pela via da palavra, a psicanálise propõe ao sujeito a ética de bem dizer o seu desejo. A psicanálise, mais especialmente o discurso do analista, no qual o mesmo ocupa o lugar de objeto- a, causa de desejo poderia auxiliar o sujeito a resgatar seu desejo adormecido. Segundo (Garcia-Rosa, 1983, p144). É a busca de um objeto que se imagina fonte de satisfação. “O objeto do desejo”, segundo esse autor, não é uma coisa concreta que se oferece ao sujeito, ele “não é da ordem das coisas, mas da ordem do simbólico”
Entre as características especificas da concepção psicanalítica do Tempo, duas delas merecem nossa atenção para não haver mal-entendido: a atemporalidade e a compulsão à repetição. As duas parecem desafiar nossas idéias mais evidentes sobre o tempo. Mas cada uma o faz à sua maneira. Dizer que o inconsciente ignora o tempo, como postulou Freud, não significa que nós tenhamos a possibilidade de escapar aos ultrajes e incômodos do tempo esse é portanto um mecanismo que ninguém escapa. Quando pensamos na sexualidade, por exemplo, é evidente que ela sofre mudanças, quaisquer que sejam as suscetibilidades individuais. Enfim, somos forçados a reconhecer o declínio dessa atividade, que se altera como as outras funções psíquicas como a memória, locomoção, atenção etc.
Pensamos que Freud quis dizer é que os traços mnésicos de nossos desejos libidinosos e a capacidade que temos de reinvesti-los ainda e novamente não se perde jamais e é sempre potencialmente ativo. Ela a memória guarda sua vivacidade e sua possibilidade de ser reinvestida ao nível de seus traços, mesmo quando a potencia sexual é perdida. Portanto, na medida em que os desejos, os projetos e as fantasias estão vinculados e fazem parte de nosso ser inconsciente, podemos pensar sobre eles como em uma espécie de reserva de vida, de esperança, de ilusões.
A compreensão e o reconhecimento de que o ser humano é mortal, e vive um ciclo existencial, cumprindo a trajetória desde nascimento até o declínio da energia vital, é importante e necessária. É preciso um retorno sobre si mesmo. E a conscientização de que a vida sexual existe e continua viva até alcançar os mais altos níveis de idade, o que muda é apenas a freqüência dos desejos e os ritmos das relações, mas a Sexualidade e sobretudo, o desejo continua vivo.
As modificações na imagem como outras perdas, a interrupção de um real que não encontra um tratamento possível, poderá provocar a entrada na velhice no sentido negativo do termo pela perda do desejo. Contudo, o destino poderá ser bem outro. Como o envelhecimento se processa geralmente de maneira silenciosa, ao contrário da sempre ruidosa adolescência, o sujeito tem na velhice possibilidades de adaptar-se àquilo que se instala por pequenas modificações. Isso não impede, contudo, o surgimento de dificuldades concernentes ao reconhecimento e aceitação da imagem que a velhice impõe.
Tudo isso necessita de uma grande organização psíquica complexa, que nos torne aptos a ligar juntos, os projetos a realizar e os projetos já realizados, segundo um sentido muito específico e que lhes vai permitir ser investidos, preservados e armazenados de forma a estarem disponíveis no momento necessário de ali buscar recursos, para prover ao que estar vivo no indivíduo, no seu mundo interno, a fim de ajudá-lo a fazer face às dificuldades da vida. E aos incômodos do envelhecimento.
Sabemos que a velhice incomoda porque expõe o limite aos quais todos nós somos submetidos. A velhice desacomoda, exigindo certa acomodação dos traços e dos restos advindos pelas perdas, pelos lutos e também pelas mudanças da imagem e na relação com o Outro. A velhice exige novas transcrições e traduções. Ela desacomoda muitos “restos” deixados em qualquer canto à espera de um tratamento possível, desacomoda a procrastinação, desacomoda a idéia de imutabilidade ou de permanência, desacomoda as promessas, os sonhos e os futuros não cumpridos, mas que gostaríamos de realizar, desacomoda ainda os ideais e as certezas nas quais todo sujeito busca se alojar. Envelhecer desacomoda e incomoda, principalmente nesse mundo permeado de máscaras do novo.
Ao falarmos de Sexualidade, Desejo e Tempo no processo de envelhecimento, percebemos que sabemos muito pouco, ou melhor, aquilo que supúnhamos saber não é suficiente para defini-los, e mais ainda, verificamos que esse saber precário é produto de uma visão parcial muitas vezes eivada de mitos, tabus e preconceitos fortemente enraizados pela cultura na qual estamos inseridos A velhice apenas nos acena pequenos traços, pequenos matizes que não formam um quadro tangível, não percebemos o silêncio pelo qual ela marca suas trilhas em nossa imagem, mesmo que a percebamos no Outro. Como bem diz Mário Quintana em seu poema. (melhores poemas, 1996):
O velho do espelho
Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse. Que me olha e é tão velho, tão mais velho do que eu. Porém seu rosto... é cada vez menos estranho... Meu Deus, meu Deus... Parece. Meu velho pai - que já morreu! Como pude ficarmos assim?
Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse. Que me olha e é tão velho, tão mais velho do que eu. Porém seu rosto... é cada vez menos estranho... Meu Deus, meu Deus... Parece. Meu velho pai - que já morreu! Como pude ficarmos assim?
